terça-feira, 28 de agosto de 2007

Preparando números


Educação. Para alguns o ato de ensinar e aprender. Para outros um “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano” que visa transmitir normas de comportamento equiparando os membros da sociedade. Para o Caio, menino de 11 anos que vende bala à noite na porta da Universidade, é a do banco da escola e o cumprimento gentil de uns poucos que passam na rua e o vêem.

Ao refletirmos sobre a definição da palavra educação encontramos muitos significados e, independente do admitido como oficial, conceituamos que toda ‘atitude nossa de cada dia’ acontece pela presença ou pela falta dela. Seja no discurso mais arrumado ou na simplicidade presente na perspectiva da criança, há semelhança em um aspecto: a educação está intimamente ligada à formação da sociedade e ao que esperamos que ela reproduza.
E é analisando a única idéia consistente e generalizada dessa reflexão que penso novamente no Caio.

Ontem o encontrei. Conversávamos sobre seu ‘desenvolvimento escolar’, se tem freqüentado às aulas e se faz uso dos materiais que a escola cede para a dita aprendizagem. Ele disse que talvez precisará de um livro de matemática, mas que nem sabe porquê (e para quê) irá utilizá-lo, que mal tem essa matéria e que não é em números que ele conversa por aí.

O Caio, como muitos outros alunos desse sistema educacional precário, aprende matemática em uma velocidade inversamente proporcional à sua transformação em só mais um número nas estatísticas de política educacional e, se consegue fazer uso do pouco que lhe é disponibilizado em um ensino fajuto, é para aprender a dar o troco certinho a quem compra a bala que vende no farol.

Esses meninos e meninas órfãos de uma base de desenvolvimento sólida e de uma estrutura de ensino forte são a reprodução massificada de uma sociedade doente, de uma sociedade que não enxerga suas crianças, mas as contabiliza para uma pesquisa futura.

Hoje eu direi ao Caio para "esquecer" a matemática. Vou lhe falar boa noite ‘em’ História Brasileira, que é pra ver se ele compreende que o futuro é ele e é dele.

4 comentários:

Anônimo disse...

Essa é a minha neta,eu só não conheço o Caio,porém tenho esse mesmo sentimento em relação a essa quantidade tão grande de (carrinheiros),que vivem pelas ruas e talvez também se perguntem,,para que matemática.
parabéns Bruna,eu sempre quiz dizer alguma coisa parecida com isso,você falou por mim. beijos enviar recado cancelar

OS SEQUELAS disse...

Estou contigo tambem Bruna. Quando vemos crianças nas ruas não é apenas reflexo de um sistema explorador. Mas tambem uma falta de reflexão da criança, pessoa, dos pais e principalmente das escolas. Um professor ao ensinar alguma matéria tem o dever de colocar o aluno em reflexao sobre a vida e o porque daquilo. Um professor de matematica, não deve apenas ensinar a somar, multiplicar e etc, deve mostrar o aluno o porque daquilo ser ensinado. Quais são as consequencias se ele aprender aquilo. Claro, que muitas crianças são obrigadas a vender balas na rua para levar dinheiro a familia, pois a situação social no Brasil é macabra, assustadora. Mas se a criança não refletir , e a reflexão começa com a educação, seus filhos farão o mesmo. Ja até comentei com você. Quando dava aula no heliopolis, vi diversos tipos de pensamentos. Muitos bandidos, drogados, porque eram desanimados, não viam outros jeitos para mudar de vida e apelam a isso. Mas no mesmo lugar conheci pessoas especiais, que acreditavam em si mesmo e lutavam por uma vida dignamente, até estudando no ensino superior. O que falta as vezes passar, alem do conhecimento é a alta estima e mostrar que podem ser vitoriosos na vida.

Bruna Gonçales disse...

Não sei se consegui ser clara no texto, minha intenção não é questionar o currículo escolar. Não desmereço a matemática e não acho que ela não deva ser absorvida por alunos de um sistema precário. A utilizei como exemplo pois foi a experiência que tive com o Caio e, coincidentemente, encaixava-se no contexto que queria debater.
Sou esperançosa. Acredito que o esforço pessoal somente - em mínimas, mas milagrosas vezes - faz uma grande diferença, e arranca da minoridade alguns 'gatos pingados'.
Que as falhas no sistema são inumeráveis, isso todos sabemos.
Que a educação, como bem debatido nos textos posteriores o meu (Carolina Scorce e Ricardo Simões de Carvalho), não forma críticos, nem pensadores, e se basta com uma "sociedade de peões" (e nada contra à quem exerce tal posição, afinal o trabalho não é facil, a remuneração é baixa - mais uma tragédia do sistema, mas que fica pra futuras discurssões - e, independente do campo de atuação, imprescíndível).
A falha está na essência. Na forma como os majoritários, os líderes enxergam sua posição. Há uma inversão na idéia de quem serve à quem.

Anônimo disse...

É... Quem diria, realidades ditas de uma forma direta,consciente....
Não podia ter explanado melhor !!!

Mando bem ....
bjo